EXTRACTOS DE LIVROS DO AUTOR
Uma mais-valia não prevista por Marx
Nota de pé de página n.º 30 do Livro do Autor «O Céu (Im)possível»
...... Um autómato (que não exige cuidados sociais e não faz pausas para café, nem discute futebol) pode implicar um `trabalho necessário´ (para pagar o seu investimento e manutenção por peça realizada) muito inferior às horas de `trabalho excedentário´ nessa peça, que, então, constituirão uma mais-valia no resultado. A substituição do trabalho manual humano pelo mecânico trouxe vantagens agora aos capitalistas, que Marx nem previa tão grandes naquela altura (por outro lado, a substituição do trabalho intelectual pelos computadores está a trazer um mundo de desempregados, e os computadores não descontam para a segurança social...). ......
ABORTO
Posfácio do Livro «Doloroso Dilema»
Quando comecei a namorar com a mulher com quem casei, disse-lhe que gostaria de vir a ter `meia dúzia´ de filhos. O que, diga-se em abono da verdade, não assustou nada a mocinha na altura. A apreensão veio-nos depois, à medida que as crianças iam sendo concebidas, na luta árdua pela vida que íamos tendo.
O aborto, todavia, nunca foi uma decisão. O critério era: agora a maior responsabilidade assusta, mas depois de a criança nascer já não se troca por nada deste mundo. Mas `esta sensação de já por nada deste mundo se dispensar o filho em perspectiva´ verdadeiramente surgia antes do nascimento, no espírito da mãe, quando ela começava a sentir o seu bebé, e aquele amor imenso explodia.
Assim fomos bafejados não com seis, mas com cinco filhos perfeitinhos à nascença. E continuamos bafejados na perfeição actual da sua saúde, no discernimento com que lutam na vida, na constância dos seus casamentos. Juntar agora uma multidão nas festas de família, incluindo mais de uma dezena de netos, é um extraordinário prazer, por que valeu bem a pena tanta luta.
Mas reconheço que nem toda a gente tem assim esta sorte. Muitas vezes uma gravidez pode tornar-se uma violência impossível. É fácil alguém botar sentença quando não se encontra confrontado com o drama.
É por isso que no fim deste livro, (cuja primeira parte é uma implícita condenação do aborto e a segunda um pretenso hino ao sacrifício supremo duma mãe) eu devo humildemente dizer que o Autor é suspeito, pois nunca se viu em situações desesperadas.
Por exemplo, não concebo a ideia de sacrificar uma mulher já com vários filhos para, em contrapartida, dar vida a um nascituro.
Não concebo que se possa exigir de uma mulher que continue com a gestação depois de violada, pois a decisão terá de ser só dela e livremente tomada. Particularmente, não posso aceitar uma concepção se for incestuosa, pois a dignidade humana (de animais racionais) exige o respeito sexual de pais para filhos, entre irmãos, de tios para sobrinhos; e sabe-se que a consanguinidade é contra as leis da reprodução sexuada, que exige variabilidade. Um ser incestuoso não tem o direito social de existir, pois socialmente constitui uma aberração e arrasta um labéu depois para toda a vida.
Aceitaria mesmo o aborto num caso manifesto de malformação do feto. Como digo na voz de uma das personagens deste livro, as malformações manifestas são uma prova de que um Deus bondoso não consegue olhar por que tudo seja perfeito, e, então, não é legítimo as Igrejas exigirem que se respeite uma obra imperfeita como sendo de Deus. Uma criança manifestamente deficiente e em absoluta dependência é uma pesada cruz até para ela própria. Só um sádico se decide pelo sofrimento.
Assim, eu não posso aceitar a posição intransigente das Igrejas ou de movimentos pró-vida que exigem sempre que se prolongue a gestação em toda as fecundações. Um parecer médico e de uma assistência social de nível superior, isenta de ideologias, deveria julgar caso a caso a indispensabilidade social dum aborto.
Por outro lado, de várias coisas, agora, tenho certezas:
Todo o embrião é um ser único. É este facto que não pode ser escamoteado em qualquer aborto. Não é o fundamentalismo do direito à vida que deve ser respeitado, mas o facto de que, feito um aborto, a trajectória duma vida humana semelhante não existirá mais. O argumento de que `permitir um nascimento pode impedir o desejo de outra concepção, logo o nascimento de um ser também único´ é falacioso, porque num aborto estamos em presença dum caso concreto, real e, no desejo, meramente duma hipótese.
Experiências com embriões condenados à destruição são um crime contra a moral social, neste ponto de vista. Da mesma forma, não é aceitável liberalizar completamente o aborto, quando a mulher o desejar, pois este pode, também, ser socialmente criminoso.
Não são poucos os casos em que o bebé que se matou em pensamento se revela depois um espanto e uma ternura quando começa a comunicar, ou mesmo, até, um elemento precioso na elevação do espírito humano. Não é uma coisa que se possa deitar fora, não é um animal que se enjeite. Depois de um ano de vida, um bebé dispara e não há animal que o agarre...
Pensamento de Ângelo na novela «O Exemplo Vivo Duma Alma Solta do Corpo», do livro «O Deus Feminino»:
Mas a perda da influência moral [da Igreja] tornou-se grave e deixou a Civilização Ocidental à deriva, sem saber em que se apoiar, também desapontada com os políticos. Assim, a moral das Igrejas deixou de ser respeitada. Além de que ficou ultrapassada no devir, sempre atrasada, pois é orientada no mais alto nível por anciãos de idade provecta (que, por exemplo, teimam em condenar o preservativo, sabendo-se que pode evitar a disseminação da sida; e teimam na generalidade em não aceitar o aborto, desejável numa violação ou numa malformação...).
Pode ser herança inata, no conceito platónico ..... ou pode ser herança social (para que eu me inclino mais, dependendo da formação), o que é facto é que estão implantadas no inconsciente colectivo Ideias, conceitos morais de base necessários para uma vida harmoniosa em sociedade, que é necessário lembrar constantemente (o Decálogo de Moisés é um exemplo). Quando estes são ignorados, a sociedade desagrega-se. Por outro lado, uma utopia de aperfeiçoamento da sociedade, seja religiosa ou profana, enforma sempre desses conceitos morais e os mais adequados no tempo (no ponto de vista de Protágoras, que foi o que Jesus fez); então, se ela se afunda, perdem-se referências, fica-se no vazio… Que é um pouco onde nos sentimos hoje, entregues ao capitalismo desenfreado, aos negociantes da droga, à ideia de que vale tudo o que não contrarie a sagrada liberdade individual. A falência de todas as últimas utopias poderá mesmo contribuir para que se instale um `niilismo ético´, como alguns prevêem?
Mas não é evidente que caminhamos para esse niilismo? Que é feito dos valores de que a minha mãe falava tanto e me enformaram na educação religiosa que recebi: o acatamento da autoridade paterna, o respeito pelos professores nas escolas, a dignidade e honradez dos compromissos pessoais, a verdade dos governantes, o pudor das mulheres (esquecidas do seu papel fundamental na reprodução e da necessidade de confiança que o macho tenha em si, para ajuda na criação da prole)?”